sexta-feira, 29 de julho de 2016

Entrevista: Pedro Humangous Salim

Pedro Humangous Salim é publicitário e fiel ouvinte de heavy metal, mais precisamente da nova safra. Recentemente entrou para uma das maiores equipes de fornecimento de música via streaming, sim, estamos falando do Spotfy. Ele também é uma figura que de uma forma ou de outra apoia o cenário metal do Brasil: é o criador da revista eletrônica Hell Divine, e foi colaborador de uma das maiores publicações impressa de música pesada do Brasil, a veterana Roadie Crew. Em nosso bate-papo Pedro fala de seu mais novo emprego, explica a pausa de sua revista. Quando questionado sobre o nosso precário cenário, ele aproveita e solta sem meias palavras a falta de profissionalismo que ainda existe dentro do underground brasileiro. 

Pedro, vamos começar pelo o seu mais novo emprego. Qual é a sua função no Spotify?
Pedro Salim: Trabalhar com o que gosta é uma satisfação enorme! Fui contratado como executivo de vendas do Spotify em Brasília. Todas as empresas, da capital federal, que tenham interesse em fazer publicidade dentro da maior plataforma de música do mundo, precisam negociar comigo. Presto atendimento e assessoria às agências de publicidade para, juntos, acharmos as melhores soluções publicitárias para as campanhas.

Aos poucos o Spotify vem se tornando uma importante plataforma para consumir música. Você acredita que a mesma é um dos meios mais rentáveis tanto para o músico quanto o consumidor final. Ou seja, ninguém perde...
Pedro: O Spotify já é a maior plataforma para consumo de música via streaming. Está à frente do Deezer e Soundcloud, principais concorrentes. No mundo, já temos 100 milhões de usuários ativos. No Brasil, estamos próximos dos 10 milhões e esse número não para de crescer. Acredito que esse modelo de consumo de música seja o melhor para todas as partes envolvidas, todos saem ganhando no final. O usuário tem acesso a tudo, a qualquer momento e em qualquer lugar, pagando muito pouco por isso. Os músicos ganham destaque e podem levar sua música para mais pessoas, sendo remunerados por isso também, direta ou indiretamente.

Caso a nova lei que limita o fornecimento de dados para o consumo de internet entra em vigor, isso causaria uma reviravolta na vida de muitas empresas e até mesmo do cidadão comum. Empresas como é o caso do Spotify teria alguma desvantagem com essa nova lei?
Pedro: Limitar o acesso das pessoas nunca será uma coisa boa. O que penso que irá acontecer é o usuário pagar mais caro pra usar mais a internet. E isso pode sim afetar o comportamento das pessoas na internet, diminuindo o consumo no geral. Ainda é cedo pra dizer, precisamos aguardar mais pra entender se isso irá realmente acontecer e, se acontecer, esperar para analisar as opções e preços oferecidos pelas operadoras. De qualquer forma, pode sim afetar empresas de streaming, como é o caso de Netflix e Spotify por exemplo.

Ainda dentro do contexto música digital, hoje nós temos o Deezer e Spotify como uma das principais fornecedoras (de forma legal) de música via streaming. Quais as vantagens que você enxerga dessas novas plataformas para o CD físico?
Pedro: As vantagens são todas. Você paga pouco e tem muito. O acesso é ilimitado e vasto. Não há mais a necessidade de comprar nada, armazenar arquivos, se preocupar com vírus ou a baixa qualidade de áudio. Acredito que esse seja o novo modelo de comercialização e consumo de música do futuro.

O consumo (música e vídeos) digital é uma faca de dois gumes, por um lado ela beneficia o fã, pois torna-se mais fácil ter o material do artista, só que para o artista nem tanto, pois ele tem a sua criação facilmente clonada, ou seja, fica difícil controlar ou ter algum retorno financeiro. Como você ver essa questão?
Pedro: Muito já foi discutido sobre essa questão. Sem a internet, a maioria das bandas jamais seria ouvida. Um dos principais intuitos das bandas é ser ouvida e reconhecida. O retorno financeiro vem depois, através de shows, venda de merchandising e, por fim, a música propriamente dita. É triste, mas, nos dias atuais, é a realidade. A internet é uma vitrine, você precisa primeiro engajar seu público, conquistá-lo. Se toda a estratégia for bem-feita, certamente haverá uma legião de fiéis seguidores. Aí sim é hora de buscar o retorno financeiro.

Você era um consumidor assíduo do material físico (CD e DVD), como tem se adaptado aos novos formatos, ou ainda faz aquele sacrifício para adquirir o produto físico?
Pedro: Não só era como ainda sou. Colecionador de produto físico hoje em dia sofre. Não é por que existem novas ferramentas para consumir música que deixei de adquirir meus discos. O disco físico é mais um fetiche, compra pra ter na prateleira, na coleção. Mas no dia a dia, no carro, trabalho, etc, usamos mesmo as formas digitais. É triste ver as lojas com cada vez menos produtos, até mesmo as especializadas estão fechando as portas. Ainda existe um público fiel para o material físico e, basicamente, se alimenta das compras online. 

A revista digital Hell Divine prometia ganhar o seu espaço no cenário, só que após lançar algumas edições você anunciou o fim. Quais as dificuldades que você encontrou para manter a mesma? 
Pedro: Eu verdadeiramente acredito que ganhamos sim muito espaço no cenário. Em apenas 5 anos de trabalho saímos do nada para sermos uma das maiores e mais reconhecidas publicações digitais do país. Foram 24 edições, todas feitas com carinho e muito suor. Não era fácil administrar uma equipe de 12 pessoas, com uma enxurrada de bandas querendo atenção e espaço na nossa revista. Na verdade, a revista não morreu, apenas demos uma pausa – sem data para retorno. Não encontramos dificuldades, nem desanimamos. Apenas achamos que era hora de parar por um tempo. As edições estavam tendo bastante acesso, na casa das 20.000 leituras. As páginas oficiais no Facebook e Twitter continuam crescendo diariamente. Eu continuo tocando o blog sozinho, publicando algumas notícias mais relevantes, matérias e principalmente resenhas. Vamos ver o que o futuro nos reserva.

Eu sou o tipo de pessoa que tem uma dificuldade enorme para leitura a longo prazo em frente ao smartphone, tablet ou notebook. Compensa dedicar horas escrevendo para ter um feedback muito curto?
Pedro: É, confesso que não é a melhor coisa do mundo ler uma revista na tela do computador ou celular. Mas é mais prático, você leva pra onde for, dentro do seu bolso. Se compensa dedicar horas? Dedicamos 5 anos nisso e te digo, vale cada segundo! Sempre fizemos por prazer, sem interesses financeiros. Dava orgulho ver a banda feliz com a ajuda que dávamos divulgando seus trabalhos. Sentimos que fazíamos parte dessa grande engrenagem que é o Heavy Metal no Brasil. O feedback não era curto, era enorme! Muita gente mandava email elogiando, agradecendo e pedindo matérias. Tinha apoio das assessorias de imprensa, das bandas e dos fãs. O retorno era muito bom!

A pergunta que não quer calar: Por que o mercado para o metal aqui no Brasil ainda é encarado como amador?
Pedro: A pergunta de 1 milhão de dólares (risos)? São tantos fatores que não caberiam aqui, teríamos que ir pra uma mesa de bar e discutir por horas. Mas basicamente a resposta está na sua pergunta: amadorismo. As próprias bandas, genericamente falando, não se importam com sua imagem, não se preocupam em ter um logotipo e arte de capa bem feitos, falta postura adequada nas redes sociais e nos shows ao vivo, as assessorias de imprensa muitas vezes amadoras (mal sabem escrever), os produtores que nunca fizeram eventos se metendo a montar grandes shows, as casas de shows péssimas, os lojistas que não entendem seu público e também cobram muito caro por tudo, e por fim o público que não comparece, não compartilha e não se mexe pra fazer nada de bom para esse mercado. Tá todo mundo muito passivo, muito “cada um por si”. 

Para finalizar, cinco bandas nacionais que não saem da sua playlist:
Pedro: Essa lista está em constante mudança, mas atualmente são:
In No Sense
Woslom
John Wayne
Optical Faze
Age Of Artemis


terça-feira, 26 de julho de 2016

Filme: The Eichmann Show


Houve uma época em que o meu interesse pelo tema '2º Guerra Mundial' era mais profundo do que é hoje, o tempo foi passando e o fascínio aos poucos ficou para trás, até que resolvi deixar de lado a Alemanha e o seu nazismo. O registro 'A Queda: Os Últimos Dias de Hitler', do diretor alemão Oliver Hirschbiegel - muito bom, diga-se de passagem -, foi o último material relacionado ao assunto que o ser que vos escreve teve o acesso. Claro, isso foi antes de conhecer 'The Eichmann Show', filme do diretor Paul Andrew Williams, lançado no início de 2015. Confesso que o trabalho de Paul aguçou novamente o meu entusiasmo pelo conteúdo. 

The Eichmann Show retrata o julgamento do general Otto Adolf Eichmann (Um dos braços direito de Hitler) - ele foi responsável não só por opinar e autorizar o holocausto como estudou toda a logística de transporte dos judeus para os guetos e campos de extermínio. O mais importante em documentar tal fato por meio de um longa, é que outros personagens da Schutzstaffel (SS) ganham notoriedade e autoria em muitas atrocidades, e assim podemos esclarecer melhor os fatos sobre o período. Claro que existem documentos que relatam de forma detalhada as responsabilidades, mas, nada como uma mídia desse porte para ajudar a expandir um dos capítulos mais animalesco da nossa história.

O filme de origem inglesa e irlandesa (Irlanda do Norte) tem em seu elenco principal os atores Anthony  Lapaglia (Leo Huwitrz.), Marin Freeman (Milton Frouchman.), Andy Nyman (David Landor) e Anna Louise Plowman (Jane Hurwitz). E por mais que a figura de Adolf Eichmann seja o elemento central, não é o ator (Zora Bishop) que o interpreta, o grande destaque da obra, muito pelo contrário, Zora tem rápidas passagens, a figura do próprio Eichmann é a que ganha mais destaque que o seu personagem. Como assim? Paul optou por usar cenas reais dos momentos em que mais é explorada a imagem de Eichmann, e tal sacada pode ser considerada como um grande acerto.

O enredo tem como foco o depoimento de figuras fundamentais que sobreviveram aos atos desumanos de Eichmann e suas tropas, e também, o empenho de Milton e Hurwitz em passar com o máximo de apelo emocional a sentença do general alemão. Com o passar dos anos, muito após o holocausto, Adolf Eichmann foi capturado na Argentina em 1960 (pais onde serviu e serve como uma das hipóteses de Hitler ter buscado refúgio após o fracassado plano de dominar o continente europeu) e levado à Israel para que o seu julgamento fosse sacramentado após dois anos, em 1962. Com tal acontecimento a BBC de Londres procurou dois de seus melhores homens para coordenar o trabalho de transmissão do evento, foi exatamente onde Milton Fruchtman, produtor de televisão, consagrou o seu nome, e foi crucial para que o renomado documentarista Leo Hurwitz recuperasse a sua moral, pois Hurwitz era uma das figuras públicas inclusa na blacklist, famosa lista de pessoas envolvidas com os movimentos esquerdistas, ou seja, os comunistas.

Paul fez questão de colocar as imagens originais do julgamento, o que leva em certos momentos o filme tomar rumos para o tipo documentário. Comparado com o nosso atual padrão de transmissão, as cenas captadas não são das melhores, e por conta da desvantagem, os relatos ficaram ríspidos diante das câmeras, mas mesmo assim é impossível não ficarmos sensibilizados com as frases e expressões das vítimas. Tudo que conferimos em relação aos depoimentos das mesmas durante o processo no tribunal é real, não existe atuações, e quando você escuta de um pai que foi obrigado a descarregar um caminhão cheio de corpos, inclusive o de sua esposa e seus dois filhos, fica complicado manter a frieza.

O trabalho da equipe israelense, liderada pelos americanos Milton e Huwitrz, também merece destaque. Pois uma dos objetivos de The Eichmann Show é passar para o público o esforço e dedicação que os profissionais tiveram com o caso, alguns deles, também foram escravizados durante o período da segunda guerra mundial, em certos momentos o espectador depara com algumas reações partindo de quem operava a câmera, pois, alguns membros do estafe também sofreram abusos e compartilharam das mesmas experiências relatadas pelas vítimas.

The Eichmann Show é um filme bastante técnico, e em alguns momentos passa uma carga emocional muito grande. Mesmo se você não é um entusiasta pelo assunto abordado, eu recomendo. O trabalho de Paul W. é um dos mais próximos da realidade, pelo simples fato de encaixar o material original da época entre as cenas de ficção, por colocar depoimentos de familiares que perderam esposos(as), filhos(as), algum parente no pior e mais agressivo regime que uma sociedade civil já sofreu até hoje.


sábado, 23 de julho de 2016

A rica trilha sonora de Stranger Things



Stranger Things tem pouco menos de uma semana de estreia pelo Netflix e já viralizou no mundo inteiro, claro, o feedback tem sido positivo. Não é para menos, pois os irmãos Matt e Ross Duffer conseguiram captar o melhor da cultura pop dos anos 1980 e criaram uma única história. Certamente se você tem entre trinta e quarenta anos terá uma nostalgia muito grande ao assistir os episódios de S.T. Entre as principais influências podemos citar: Os Goonies, Conta Comigo, Arquivo X - tudo bem, as aventuras da dupla Mulder e Scully é do começo dos anos 1990, mas está valendo. E também não poderia deixar de faltar a música, essa sim, foi escolhida a dedo. 

As aventuras de Stranger Things tem como data o ano de 1986, portanto é natural que a trilha seja daquela época. Falar dos anos oitenta é impossível não citar o pop, post-punk e até mesmo o Adult Orient Rock (AOR). E são justamente os estilos citados que estão em destaques na série.

Foi de grata surpresa deparar com 'Africa' da banda TOTO, música retirada do álbum IV de 1982 - Africa é uma canção que não apenas marcou uma geração como ultrapassou a barreira do tempo, ela permanece viva na playlist de muita gente, inclusive faz parte da minha. Quem também aparece de surpresa é a banda Echo And The Bunnymen, mutos podem até apostar que a faixa escolhida estão entre Killing Moon, Lips Like Sugar ou Bring On The Dancing Horses. Não, a música que faz parte da trilha sonora saiu do álbum Once Rain (1984) com a faixa 'Nocturnal Me'. E o hit 'Should I stay or should I go' do grupo britânico The Clash dispensa cometários. Como nem tudo é anos oitenta, vamos destacar dois grupos que nasceram nos anos sessenta, mas que fazem parte da seleção, estou falando do som psicodélico de Jeferson Airplane com a música 'She Has Funny Cars' e o rock ácido da banda americana The Seeds, aqui nós temos representando o grupo a música 'Can't Seem To Make You Mine'. 

Outra que por questão de alguns meses não entrou para os anos oitenta é a música 'Atmosphere' do obscuro e "depressivo" Joy Division, mas isso não faz diferença, pois foi no começo dos anos 1980 que a canção do precoce J.D embalou nas discotecas do mundo inteiro. Saindo da obscuridade de Ian Curtis e Cia vamos para o som mais alegre e dançante do Modern English com a música I Melt You, faixa do álbum After The Snow, lançado no ano de 1982. Outra boa surpresa é a presença do surpe grupo feminino The Bangles com a música 'Hazy Shade Of Winter'. Além das bandas destacadas o leitor pode conferir outros grandes nomes que não são exatamente da época mas que tiveram canções que explodiram na década da super-cultura pop: New Order, Foreigner, Corey Hart são grupos que também estão em destaque.

Explorar os anos 1980 em trabalhos cinematográficos não é uma novidade e tão pouco será um estorvo. Outro filme que aposta bastante nas bandas dessa época é um dos mais recentes trabalhos do ator Jack Black - The D Train (Turma de 94) - o qual eu tive a oportunidade de comentar para esta seção. Stranger Things está longe de ser a série mais original, porém, não só conquistou fans pelo mundo como já estão pedindo a segunda temporada.



quarta-feira, 20 de julho de 2016

Entrevista: Dillo D'Araujo



Com quatro discos lançados, sendo que o quarto ainda é recém-nascido - assim ele gosta de tratar os seus trabalhos, como se fosse um filho -, um registro em DVD (Música Roqueira Popular Brasileira), de 2011, o qual retrata o início de sua carreira por meio de um documentário, no mesmo é possível conferir uma compilação de diversas apresentações ao vivo. No currículo consta  uma carreira de mais de 15 anos, discos mais voltados para o hard/blues, MPB e regional. Também podemos acrescentar que o incomum e caótico faz parte de suas criações. O músico, compositor e poeta Dillo D'Araujo concedeu algumas palavras para o blog, onde ele fala sobre a cena, dificuldades de ser um músico independente, e, quem sabe, da polêmica música 'Mamãe Mamãe'.

Como anda a repercussão de seu último trabalho, simplesmente intitulado de Dillo? Conseguiu alcançar os resultados planejados?
Dillo D'Araujo:  Sobre a repercussão do disco é muito cedo para julgar, pois só têm dez dias que foi lançado, eu só vou ter uma resposta mais exata após nove meses, é mais ou menos o tempo de gestação de um bebê. Mas eu já tenho recebido alguns comentários positivos, estou tendo bons resultados dos principais cadernos do país.

Dillo comparado com o seu antecessor (Jacaretaguá) é um pouco menos complexo, porém, acredito ser o seu trabalho de maior produção. O quanto ele é superior e exigiu de você em relação aos outros?
Dillo: É complicado dizer o quanto um disco é superior em relação aos outros, eles são como filhos, você não acha um filho mais inteligente ou bonito que o outro, o tratamento e amor é igual para todos. Esse disco obteve uma produção um pouco mais duradoura, o Jacaretaguá levou nove meses para ficar pronto, já o 'Dillo' eu gravei em dois anos, e contou com os trabalhos do produtor Diego Marques, diferente dos outros que conta apenas com a minha assinatura. Eu abri muito para os métodos e visão dele, o Diego é um cara que faz um trabalho de música mais definido, os meus trabalhos abrem muito para o ruído, barulho e caótico, e ele já parte para uma linha mais clean, a diferença dele é essa, conseguiu deixar as músicas mais limpas. 

Por falar em Jacareguatá, até hoje estou tentando compreendê-lo. Você considera o álbum  mais caótica que já construiu em toda a sua carreira? 
Dillo: Com certeza o Jacaretaguá é o meu trabalho mais caótico do ponto de vista de desorientação estética, pois essa é exatamente a proposta do disco. É confundir, é empenar, é entortar, é trabalhar com signos sonoros pouco usuais, latido de cachorro, barulho de fogos de artifícios, é uma obra muito liberta. Ele não tem ninguém para dizer o que pode ou não pode, Jacaretaguá é um disco sem limites.

Voltando ao 'Dillo', ele traz algumas participações especiais, entre elas podemos destacar o compositor, guitarrista e vocalista Frejat. Como pintou a contribuição dele para o seu trabalho?

Dillo: A participação do Frejat no disco era algo que eu já vinha plenejando há algum tempo, em 2005 quando lancei 'Crocodillogang', eu toquei no festival Porão do Rock e nesse mesmo ano o Barão Vermelho também se apresentou, então aproveitei a oportunidade e entreguei o meu CD para cada membro da banda, três anos depois eu fiz a abertura de um show do Frejat, no reencontro ele me disse que tinha gostado do CD, na sequência ele veio tocar no aniversário de 50 anos de Brasília e fui convidado por ele para participar do show. Então, foi uma amizade que levou anos para ser construída. Em nossas trocas de emails eu vinha cogitando a participação dele em algum trabalho meu, felizmente nesse último as agendas bateram. Não só a participação dele como de outros, o qual eu venho lidando nos últimos anos, puderam contribuir com os seus talentos para o disco.

Para trabalhar o seu mais novo disco você escolheu como single a faixa 'Mamãe Mamãe'. Ela fala sobre a mulher moderna, aquela que optou por não casar, não ter filhos... Explique mais sobre o conceito dela:
Dillo: A centelha inspiradora de Mamãe Mamãe foi um boato, surgido no grupo de pais da escola da minha filha, de que algumas meninas da turma estavam demostrando tendências que contrariavam a heteronormalidade. Pela primeira vez na vida me ocorreu que eu poderia ter uma filha gay. Imaginei os impactos, o que isso mudaria no curso da minha vida. Após uma breve reflexão, concluí que não mudaria nada, que isso em nada afetaria nossa confiança mútua e a relação que temos. Eu sempre a apoiaria incondicionalmente em suas escolhas e decisões, nos campos afetivos e profissionais. Escrevi a letra como se fosse ela confessando isso no ambiente familiar. Me coloquei na perspectiva da minha filha para contar de uma forma tranquila para todos que ela estava bem, feliz e de boa.

Você é um músico comprometido de corpo e alma no que se propõe a fazer, tem uma entrega muito profissional tanto para produzir quanto para com apresentações ao vivo. O empresário/produtor do evento reconhece o esforço do músico? 
Dillo: Não é fácil ser músico, principalmente hoje em dia. A gente vive períodos de muita instabilidade, tanto do ponto de vista econômico como político. Os produtores de eventos também não tem segurança, estão todos em uma corda bamba, e efetivamente essa instabilidade acaba afetando nas relações pessoais. Depende muito do tipo de produtor, existe aquele produtor mesquinho, severo, que nem água oferece aos músicos, esse produtor eu evito. Depois de quinze anos de carreira, quatro discos, um DVD, eu não posso mais trabalhar com gente desse tipo, eu só trabalho com quem eu tenho referências, que vale a pena investir, justamente para evitar maus-tratos, né? Não rola de ser mau-tratado depois de tanto tempo dedicado ao trabalho e comprometimento com a música.

Ao passear pelos seus trabalhos eu diria que você é uma espécie de camaleão da música. O seu primeiro trabalho, CrocodilloGang, carrega uma proposta mais Blues/Southern/Hard Rock, já em 'Mestiço' temos algo mais próximo do samba-rock, no seu terceiro, 'Jacaretaguá', temos uma mistura do regionalismo, MPB e psicodelia. E agora no seu mais novo temos uma música, eu não diria comercial, e sim, algo mais simples e direto. O que te fez passear por todos esses estilos?
Dillo: O que me faz passear por todos esses estilos é a liberdade que eu tenho. Hoje em dia como não existem mais gravadoras, então não existe diretor artístico ditando regras sobre qual o repertório que você vai gravar, como você vai cortar o cabelo, qual roupa você vai vestir, não existe mais nada disso, a liberdade é total. Como eu gosto de música de diversos estilos do mundo inteiro, de todas as épocas, eu aproveito para viajar nessas paisagens sonoras. Eu gosto de samba, rumba, blues, rock, metal, hard core, valsa, música clássica, música de tribo... Como sou livre, eu me permito andar por esses universos sonoros sem ninguém me dizer o que ou como fazer. 

Ainda podemos esperar um Dillo mais rock n roll, mais a cara do CrocodilloGang?
Dillo: Com certeza eu quero fazer outros discos de rock mais tradicional, na pegada do Crocodillogang. No momento  estou com um projeto que envolve apenas guitarra e bateria, inclusive eu vou tocar algumas músicas do Crocodillogang junto com as novas. Trata-se de um trabalho com afinações mais baixas, naturalmente será um disco mais pesado que o próprio Crocodillogang. Eu não fico fazendo planos do que vou fazer, vou compondo no dia a dia, eu acordo e faço uma música, se ela é instrumental ela vai para a pasta de música instrumental, se é em português ela vai para a pasta de músicas em português e assim por diante. Quando eu chego em uma pasta que atinge o limite de quinze músicas, certamente será o estilo que eu vou trabalhar um disco, e de todas as minhas pastas, a que mais está adiantada é a de música instrumental.

Óbvio que seus últimos três trabalhos é mais 'brazuca' que o primeiro. Em algum momento você parou para pensar e disse: Não, agora está na hora de compor algo que remete mais a minha raiz tanto como pessoa como profissional...
Dillo: A minha raiz é a música nordestina, o meu pai é sanfoneiro, eu sou filho de pernambucano. Quando eu penso em raiz penso em sanfona, em nordeste, e não o rock/blues.

Você tem visitado muito o Rio de Janeiro, qual a sua relação com a cidade? Existe um bom mercado por lá?
Dillo: Eu circulo muito no Rio de Janeiro desde 2006 quando fui pra lá estudar música para cinema. Acabei conhecendo muita gente, sou amigo do pessoal do Blues Etílicos, toco nos bares, frequento muito a cidade há dez anos, eu gosto de lá, fiz vários amigos, com certeza é a minha segunda cidade. O Rio é a babilônia, eu toco em locais pequenos, para você lotar uma casa de show naquela cidade tem que divulgar nas mídias de grande expansão, tem que ser atração internacional. Trabalho bastante por lá, porém, não é no segmento de mainstream.




terça-feira, 12 de julho de 2016

Guns N' Roses se apresentará em Brasília


A banda americana Guns N' Roses confirma data em Brasília. Um dos maiores grupos de rock de todos os tempos anuncia turnê mundial logo após reunir antigos e fundamentais membros da formação clássica: Slash e Duff MacKagan.

O retorno deles à capital federal está marcado para o dia 20 de novembro, no estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha. Ainda não foram divulgados valores de ingressos, informação que deve ser passada em breve.

Os fãs brasilienses já tiveram a oportunidade de conferir tanto o Guns N' Roses como o guitarrista Slash, porém, em situações diferentes. Axl no comando da GNR já aterrissou em Brasília duas vezes, a primeira passagem foi em 2010 e a segunda em meados de 2014, só que sem a formação clássica. E o guitar-heroe Slash também já conheceu o calor do público brasiliense, isso foi na promoção do álbum 'World On Fire', lançado em 2014. Agora os fãs antigos e novos terão a chance de ver Axl, Slash e Duff juntos no mesmo palco. 


terça-feira, 28 de junho de 2016

Pelé - O nascimento de uma lenda



Quando alguém soltar as palavras: "É melhor ver o filme do Pelé" - pense duas vezes antes de concordar. A clássica frase do Chaves - seriado mexicano popularmente conhecido aqui no Brasil por meio da emissora SBT - perde um pouco o sentido após os irmãos  Jeff e Michael Zimbalist liberarem recentemente o longa: 'Pelé - O nascimento de uma lenda'. O filme autobiográfico conta a história, principalmente o início da carreira, do maior jogador de futebol do mundo, Dico, como era chamado ainda quando moleque, e hoje mais conhecido como Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. O filme feito para gringo ver, tem uma narrativa crua e direta. Por quebrar alguns padrões, o trabalho dos irmãos Zimbalist proporciona o incomum - o que pode gerar a insatisfação de parte do público, principalmente dos brasileiros.

A obra tem como origem produção americana, já que é o país residente dos irmãos Zimbalist, porém, conta com atores brasileiros. Entre as figuras principais estão: Jorge Mário da Silva, mais conhecido como Seu Jorge, ele faz o pai de Pelé (Dondinho); Milton Gonlçaves é o Diretor/Presidente do Santos Futebol Clube; Pelé é interpretado por dois atores, na fase inicial conta com o jovem ator Leonardo Lima Carvalho, e na segunda fase é interpretado por Kevin de Paula; Vicent D´Onofrio é Feola - treinador da Seleção brasileira na copa de 1958. E temos algumas participações especiais, a figura do próprio Pelé tem uma aparição muito curta, e Rodrigo Santoro é o narrador das partidas oficias da competição.

A primeira coisa que o espectador brasileiro vai estranhar é o idioma do filme, o mesmo  conta a história de um brasileiro, a maior parte do cenário é no Brasil, porém, o idioma do filme é a língua inglesa. Às vezes é desconfortável e, um tanto quanto, atípico ver nossos personagens ter que interpretar seus textos em um idioma estrangeiro. De início achei que fosse uma dublagem, mas eu estava enganado, a sensação que tenho é que a produção tem endereço certo, e o Brasil, talvez, não seja o país alvo. 

A história transita durante o período de infância de Pelé e vai até o pontapé inicial da sua carreira: o primeiro título de copa do mundo da seleção brasileira (conquistado no país da Suécia) - momento crucial para o mundo conhecer a figura que mudaria o rumo e cenário do futebol mundial. Uma sensação boa que Jeff e Michael conseguiram passar é a recriação do ambiente e figuras elementais daquele período, desde o elenco da seleção brasileira (Garrincha, Vavá, Zito, Djalma Santos, Zagallo e por aí vai...) até os momentos finais da copa com a explícita prepotência da seleção sueca. Ter a época documentada, mesmo que por meio de uma obra fictícia, foi de extrema importância, pois muitos que não tiveram a oportunidade de presenciar o momento, agora podem sentir um pouco do clima da copa de 1958, mais precisamente da tensão, concentração e euforia da seleção brasileira. 

Muitas das cenas, são nitidamente projetadas de forma melodramática para prender o público. Foi preciso usar de estereótipos e clichês (típico de filmes americanos) para sensibilizar, particularmente não gostei muito. Outro ponto negativo é a ausência da música brasileira, senti falta de alguns artistas que seria ideal para o momento: João Gilberto, Novos BaianosToquinho e outros grandes nomes da música brasileira cairia como uma luva. Por se tratar de uma história tupiniquim nada melhor que uma trilha sonora mais "brazuca".

Em relação a técnica, algumas partes são bem aproveitáveis, principalmente as cenas dos jogos, a exploração de recursos modernos são usados para destacar algumas jogadas de Pelé - tudo bem que às vezes fica embaraçado, mas é o jeito americano de produzir -, algo que, talvez, não teríamos se a produção fosse brasileira. Infelizmente temos que assumir que algumas técnicas e recursos só os gringos têm e sabem fazer. Estamos chegando lá, filmes ao exemplo de: 'Dois Coelhos' e 'Reza a Lenda' são os trabalhos mais próximos que temos deles.

'Pele Birth of a Legend' - título original - será uma surpresa para muitos, para outros uma descoberta. Podemos dizer, também, que ele quebra algumas regras e rompe fronteiras. E por isso muitos amantes fervorosos do cinema nacional podem criar algum tipo de repulsa. Na minha humilde opinião, diria que foi uma bela história pouco aproveitada, pois, a vida de Pelé poderia ser muito mais explorada e narrada de forma mais apaixonante, faltou o texto brasileiro. A verdade é que 'Pelé - O nascimento de uma Lenda' é o filme brasileiro mais gringo que eu já pude conferir, literalmente. E sem contar que sua história não é completamente original, já que o curta: 'Pelé - Uma história de futebol', baseado no livro de mesmo nome, de autoria de José Roberto Torero, lançado originalmente em meados de 2010, traz histórias semelhantes a do filme. Podemos dizer que a ideia de Jeff e Michael é inspirada no livro de José Roberto?