FOI APENAS UM ACIDENTE: Explora feridas não cicatrizadas
Elenco: Vahid Mobasseri, Mariam Afshari, Ebrahim Azizi, Hadis Pakbaten, Majid Panahi, Delnaz Najafi, Mohamad Ali Elyasmehr e George Hashmzadeh
Direção: Jafar Panahi
País: Irã, França
Ano: 2025
Por Rômulo Campos
Vencedor da
Palma de Ouro na edição de 2025 do Festival de Cannes, ‘Foi Apenas um
Acidente’ chegou recentemente às salas de cinema do mundo inteiro. E não
foi por acaso que a obra mais atual do diretor iraniano Jafar Panahi
obteve tamanha conquista: com este novo projeto, produzido de forma
clandestina, o cineasta cativou o público por meio de um roteiro centrado no
drama pessoal de sobreviventes de um regime ditatorial. Vale ressaltar que, ao
escolher explorar tal temática, Panahi também exterioriza seu próprio grito,
expondo demônios e sentimentos de quem foi encarcerado e torturado pelos
representantes do seu país.
O enredo gira em torno de Vahid (Vahid Mobasseri) e seus companheiros, ex-detentos do sistema opressor iraniano. Após décadas, ao ouvir um som característico que remete ao ruído de uma perna mecânica, logo ele suspeita de ser Eghbal (Ebrahim Azizi) — o homem que o torturava na prisão —, Vahid, de forma instintiva, decide ir além e buscar revanche. Porém, em certos momentos, a dúvida permeia a cabeça: seria aquele homem em suas mãos realmente o seu antigo algoz? Para sanar a incerteza, ele recorre a outros que também sofreram nas mãos do suspeito.
A construção das figuras feita por Panahi é peculiar: todos possuem passado e presente, mas compartilham a meta única de tentar levar uma vida normal. São indivíduos que não pertenciam a organizações revolucionárias ou grupos rebeldes; eram pessoas com sonhos antes da captura. Vahid, por exemplo, desejava apenas constituir uma família e prosperar. A intenção do diretor foi transformar sua obra em uma exemplificação de como uma força autoritária é capaz de destruir milhares de trajetórias.
Até mesmo os considerados “vilões” surgem como vítimas, dependendo do ponto de vista. Há um momento específico na história em que Eghbal desabafa — não como um vitimista, mas revelando seus próprios anseios, ainda que trilhados por caminhos diferentes. Nesse ponto, observa-se uma crítica ao capitalismo, pois ao carrasco, em troca do "serviço sujo", foram prometidos bens, fortuna — uma existência confortável, como nas propagandas americanas exibem em suas propagandas. Enfim, todos os envolvidos estão em uma espécie de um jogo no qual o único vencedor é quem o manipula, detendo interesses muito maiores do que os daquelas vidas comuns.
O cineasta utiliza a vingança como elemento central — seja ela justa ou não, conforme a perspectiva do espectador —, mas, simultaneamente, usa o relato para denunciar uma cultura de hábitos corrompidos no país. É notório que, com o desenrolar das cenas, percebemos o quão comum é a extorsão de cidadãos por agentes do Estado. A cada movimento ou parada, os personagens se veem sujeitos aos caprichos de um guarda ou segurança. Tais abordagens são tão corriqueiras que se tornam parte de uma rotina viciosa com a qual a população já convive com uma certa “normalidade”.





