RUSH: 50 anos do álbum 2112
Por Rômulo Campos
Poucos álbuns na história da música detêm a capacidade de
atravessar os anos e alcançar o status de clássico absoluto. Foi no número 14
da Overlea Blvd, em Toronto, que três rapazes entravam em estúdio — mais
precisamente no dia 1 de abril de 1976, há exatamente cinco décadas — para
registrar aquele que seria considerado um divisor de águas no rock n’ roll e na
vertente progressiva dos anos 70. Sim, foi no extinto Toronto Sound Studios que
Geddy Lee, Alex Lifeson e Neil Peart conceberam o aclamado ‘2112’.
Se quase dez anos antes ‘Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club
Band’ (Beatles) moldava uma nova forma do público encarar o rock, o quarto
trabalho de estúdio do Rush chegaria não só para firmar o nome do conjunto de
vez, como também foi o responsável por mostrar ao planeta que seria possível
produzir sonoridades pesadas à base de muita técnica. De maneira poética e
singular, o trio canadense dava vida às composições.
A faixa de abertura e homônima, ‘2112’, merecia um capítulo único dedicado somente a ela. Dividida em sete atos — ‘Overture’, ‘The Temples of Syrinx’, ‘Discovery’, ‘Presentation’, ‘Oracle: The Dream’, ‘Soliloquy’ e ‘Grand Finale’ — a obra versa sobre a mais pura ficção científica, narrada em um ambiente futurístico totalmente distópico. A lírica aborda um personagem que decide enfrentar uma sociedade submetida à tutela do autoritarismo, que reprime o livre-arbítrio e a criatividade. O instrumental da mesma é quase uma jornada a um cosmo "espacial" e inconfundível, capaz de rapidamente fazer com que o ouvinte replique os movimentos de bateria do saudoso Neil Peart. Não foi por acaso que o saudo "Professor" ficou marcado como um dos principais instrumentistas de toda a trajetória do gênero; ele fez escola como poucos.
‘A Passage To Bangkok’, segunda canção do LP, traz aquele
rock puro, denso e com muita intensidade no vocal de Geddy Lee. Ela possui uma
atmosfera "ledzepeliana" e um solo sujo e direto de Alex. Toques de
sonoridade oriental conferem charme à ela. Já ‘The Twilight Zone’ — uma das
minhas preferidas — é o equilíbrio perfeito entre a tensão e a calmaria, com
linhas de guitarras contrastando entre o dedilhado e o virtuosismo. Seus versos
são quase uma declaração de amor do grupo à série de TV ‘Além da Imaginação’,
criada por Rod Serling.
‘Lessons’ segue na mesma toada da anterior: intensa, reta e com o canto visceral de Geddy. E quanto à sucessora, considero um crime não ter se tornado um "hit" da agremiação: a balada ‘Tears’ é breve e objetiva, porém de uma sensibilidade infinita. É aquela típica melodia que nos faz parar para refletir sobre a nossa existência. E para encerrar o registro, ‘Something For Nothing’, a mais franca de todas e que já antecipava muito do que seria o Rush em seus trabalhos vindouros.
‘2112’ certamente figura entre os dez melhores discos de
rock de todos os tempos, não só na minha seleção, como na de outros milhares de
entusiastas espalhados pelo globo terrestre. Talvez sem pretensão, mas Geddy
Lee e companhia foram os responsáveis por gerar o material que serviu de
influência para toda uma geração. Bandas como Dream Theater, Fates Warning e
Queensrÿche, entre muitas outras, usaram este esforço fonográfico como
combustível para seus próprios processos criativos.
Não sei se foi proposital, mas justamente no jubilieu de ‘2112’, o Rush decidiu encerrar o hiato e retornar às atividades, presenteando os fãs. O nosso muito obrigado ao conjunto por criar músicas tão incríveis, capazes de superar a barreira da longevidade.



