BUGONIA: Caótico e perfeito

 


Elenco: Emma Stone, Jesse Plemons, Aidan Delbis, Alicia Silvestone, Stavros Halkias, Parvinder Shergill, Vanessa Eng e Cedric Dumornay

Direção: Yorgos Lanthimos

País: Irlanda, Reino Unido, Canadá, Coreia do Sul e EUA

Ano: 2025

 

Às vezes é necessário que a arte — seja em sua vertente exagerada, sarcástica ou minimalista — reflita um pouco do nosso cotidiano, este que nem sempre é observado e interpretado da maneira que deveria (perdoem-me se pareço presunçoso). Yorgos Lanthimos teve a felicidade de conseguir espelhar nosso dia a dia caótico por meio de seu mais novo longa, ‘BUGONIA’ (2025) — um remake de produção sul-coreana, intitulado ‘SAVE THE GREEN PLANET’ (2003).

Em uma linguagem carregada de ironia e pitadas de humor, Lanthimos exibe em sua obra toda a paranoia que vivenciamos na atualidade: teorias conspiratórias, exploração corporativista e caos psicológico. Apesar de se tratar de uma releitura de uma história publicada há mais de vinte anos, o enredo nunca pareceu tão atual; claro, a ótica do diretor ajudou, de maneira impecável, a modernizar o roteiro.

A trama gira em torno de um recorte da vida de Teddy (Jesse Plemons) e seu primo, Don (Aidan Delbis) — vale ressaltar que, na vida real, o ator Aidan também faz parte do espectro autista. Teddy vive imerso, quase em tempo integral, em conspirações e, nessa jornada, acaba arrastando seu primo. Ambos acreditam que a chefe de Teddy, a empresária Michelle Fuller (Emma Stone), dona de uma multinacional farmacêutica, é uma alienígena. Movido por essa crença cega, Teddy decide sequestrá-la para forçar um encontro com a "nave-mãe" e os superiores da executiva. A partir daí, o enredo se desenvolve presenteando o espectador com cenas que transitam do comum ao dantesco.

A ideia do cineasta de expor a verdadeira natureza humana sob um ponto de vista animalesco foi brilhante. A começar pelo personagem de Jesse Plemons, que consegue quebrar barreiras e revelar diversas facetas na pele de uma única figura. Ele constrói o perfil, inicialmente, como um cidadão comum, com seus problemas pessoais e familiares, levando uma vida aparentemente normal: casa, emprego... No entanto, essa construção não é nada linear, causando surpresa e espanto. Com certeza, estamos diante de uma das melhores atuações da carreira do ator.

Já Aidan, na pele de Don, é o elemento mais humano do filme. Mesmo sendo participativo e apoiando as ideias de Teddy, ele conquista o público facilmente por sua inocência. Emma Stone não fica atrás; mais uma vez, ela mantém a excelência ao interpretar uma empresária que é a pura personificação da nova geração de corporativistas: aqueles que fazem os próprios funcionários acreditarem estar vivendo algo grandioso ao cederem seu suor para uma companhia que só gera lucros ao dono. O que mais impressiona na atuação de Emma é como ela projeta um perfil controlador e persuasivo — do tipo que faz você acreditar que tem uma escolha quando, na verdade, tudo está sob o comando dela.


Do ponto de vista técnico, ‘BUGONIA’ tem como fortes aliados a trilha sonora e a fotografia, ambas em sintonia para transmitir toda a semiótica da película. Os cortes e enquadramentos das locações representam bem a essência de cada envolvido: a casa de Michelle transmite calmaria, sossego e um ambiente arejado; já o refúgio de Teddy nos revela o indigesto, um cenário sujo e desorganizado que, com o tempo, diz muito sobre sua psique. A música também nos conecta à ambientação, ajudando a gerar inquietude e suspense. Tudo isso engrandece a obra e nos aproxima da angústia que permeia cada take.

‘BUGONIA’ certamente se destacará no circuito por sua grandeza e construção. O enredo ganha corpo gradualmente, e tal evolução cativa o público de forma arrematadora, provocando diferentes emoções e reações. O lúdico e o surreal caminham lado a lado. Esta foi a via que Lanthimos encontrou para transmitir suas ideias com sarcasmo e um forte teor metafórico — principalmente no ato final.


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