NO OTHER CHOICE: Uma análise bem humorada do capitalismo e suas transições
Elenco: Lee Byung-hun, Ye-jin Son, Park Hee-soon, Sung-min Lee, Yum Hey-ran, Seung-won Cha, Yoo Yeon-seok, Cha Seung-weon
Direção: Park Chan-wook
País: Coréia do Sul
Ano: 2025
Gênero: Drama, comédia
Por Rômulo Campos
Há quem sustente a tese de que o
capitalismo permanece como o ápice da organização social. No entanto, sem
necessariamente adotar uma postura anticapitalista fervorosa, torna-se necessário
— agora mais do que nunca — observar suas engrenagens enquanto o modelo
atravessa períodos de mutação e instabilidade. O filme sul-coreano ‘No Other Choice’
(Adaptação da obra literária ‘The Ax’ (O Corte), do autor estadunidense Donald
E. Westlake), sob a direção de Park Chan-wook – surge como um convite a essa
introspecção.
Em seu mais recente projeto, o
cineasta disseca as sequelas de uma estrutura que, sob a pressão de crises recorrentes,
é capaz de revelar sua faceta mais perversa. O diretor não se limita ao drama
humano; ele expõe, com precisão cirúrgica, os impactos corrosivos da
transformação digital no tecido industrial, evidenciando como a tecnologia,
frequentemente comercializada como progresso, pode acelerar a obsolescência do
indivíduo. Essa temática dialoga diretamente com o humor ácido e a violência
estilizada presentes em sua famosa Trilogia da Vingança (iniciada com Sympathy
for Mr. Vengeance em 2002), mas aqui o foco se desloca da vingança pessoal
para a sobrevivência em um mercado de trabalho canibal.
O roteiro gira em torno do pacato Yoo Man-su (Lee Byung-hun) e seu núcleo familiar. Yoo atuou como funcionário de uma fábrica de papel por mais de duas décadas. Tal ocupação lhe garantia proventos elevados, a ponto de manter um padrão de vida luxuoso. Em determinado instante, ele se vê acuado e assiste ao desmoronamento de sua realidade ao ser dispensado do cargo inesperadamente. Junto à sua função, esvai-se também a existência de privilégios. O protagonista sente-se encurralado e com escassas alternativas, uma vez que não consegue se reinserir no mercado.
É a partir deste ponto que a
narrativa se desenvolve, ganhando contornos de crueldade, sátira e suspense.
Após conquistar o status do “sonho americano” — uma residência sofisticada - a qual faz parte desde a sua infância,
núcleo doméstico estável e prestígio social —, o personagem vê sua estabilidade
ruir. Sem perspectivas e em um ato de desespero para salvaguardar o próprio
patrimônio e liquidar as dívidas, ele chega a conclusão que a única forma de
obter o posto para o qual foi selecionado para uma entrevista de emprego é
eliminar, literalmente, seus concorrentes a tal vaga.
O entrave reside no fato de ele não ser um sicário, tampouco um sujeito truculento; ou seja, o público pode antecipar planos mirabolantes que nem sempre ocorrem conforme o projetado, atos que são convertidos em uma sequência de takes de comédia de erros. Mesmo em suas ações atrozes, Yoo demonstra um lado caritativo, sentindo empatia por suas vítimas e chegando a auxiliá-las em certas ocasiões. Essa dualidade entre o grotesco e o humano é uma marca registrada de Chan-wook, lembrando a complexidade moral de seu sucesso ‘Oldboy’ (2003).
O que mais sobressai nesta
produção são as camadas oferecidas ao espectador. Trata-se de nuances de um
sistema em pleno ocaso, seja pelas mutações tecnológicas, pela avareza humana
ou por transições geracionais, especificamente a ascensão da Inteligência
Artificial (I.A.) nos grandes indústrias.
Mesmo após décadas de entrega e
fidelidade, a corporação à qual o Yoo prestava serviços pouco se
importou com a figura humana. Seu cargo foi descartado como quem amassa uma
folha de papel e a descarta por não possuir mais utilidade — decisão considerada
“natural” sob a ótica de quanto se tem que reduzir custos e celeridade produtiva.
‘No Other Choice’, por meio de um enredo carregado de ironia, não veio apenas sintetizar traços de uma crise sistêmica; serve também como análise para compreender as consequências que um período de transição pode acarretar, e o quanto estas são capazes de impactar severamente nossas trajetórias.
Concluo este texto com uma reflexão sobre a expansão dos filmes sul-coreanos no mercado cinematográfico global. Nomes como o próprio Park Chan-wook, Bong Joon-ho (Parasita) e Lee Chang-dong (Em Chamas) são capazes de romper fronteiras, provando ao mundo a excelência de suas películas, mesmo quando idioma e cultura são vistos como obstáculos. Aliás, há tempos a Coreia do Sul se destaca como uma potência cultural incontestável.





