SIRÂT: O enredo é desconfortante, beirando o “masoquismo”



Elenco: Sergio Lopez, Bruno Núnez Arjona, Richard Bellamy, Stefania Gadda, Joshua Liam, Tonin Janvier, Jade Oukid, Ahmed Abbou, Abdelliah Madari e Mohamed Madari

Direção: Oliver Laxe

País: Espanha

Ano: 2025

Gênero: Drama, mistério


Por Rômulo Campos

Felizmente, a sétima arte mundial vem ganhando nomes que representam com maestria a cadeira da direção. O mais notável: trata-se de cineastas donos de obras que não carregam, necessariamente, o status de mainstream, mas sim, em sua maioria, o selo de produção independente — especialmente se considerarmos o baixo orçamento. Entre essa leva da, relativamente, nova geração, podemos destacar a francesa Céline Sciamma, o sueco Ruben Östlund e Damien Chazelle — este último já com um espaço consolidado entre os gigantes de Hollywood. E por que não incluir nessa lista o brasileiro Kleber Mendonça Filho? Particularmente, ele também tem feito a diferença. Pois bem, outro que ingressa com facilidade nesse grupo é o espanhol Oliver Laxe.

O diretor vem atraindo o olhar do público desde o lançamento do excelente ‘O Que Arde’ (2019). Recentemente, o jovem europeu entregou mais um longa-metragem que, com certeza, manterá os holofotes voltados para si. Refiro-me ao seu quarto trabalho, intitulado "SIRÂT" (2025), que já estreou com força máxima ao conquistar o Prêmio do Júri na última edição do Festival de Cannes. Além disso, figurou entre os cinco melhores títulos na categoria de Melhor Filme Internacional, do Oscar (2026). A obra merece todo o reconhecimento necessário, pois é um projeto de experimentações, de grande impacto sensorial e com uma trama que aparenta ser trivial; porém, o que se revela é uma série de camadas totalmente surpreendentes.

O enredo gira em torno de Luís (Sergi López) e seu filho Estéban (Bruno Núñez Arjona) em busca da jovem que abandonou o lar há meses para peregrinar por raves realizadas no deserto. Ao chegarem a uma dessas festas no Marrocos, ambos se deparam com um grupo que dedica a vida a tais eventos. Por conta de uma ameaça de conflito, o exército local encerra as celebrações e ordena que todos evacuem a região. Luís decide acompanhar o coletivo para um possível próximo encontro eletrônico, pois os dois se agarram à esperança de que a moça estaria nas proximidades.

A partir daí, o que se desenrola são episódios que fazem com que o espectador dedique total atenção à tela. É nas sequências seguintes que o roteiro de "SIRÂT" ganha vigor e propósito; é nos acontecimentos subsequentes que o condutor da obra amarra a narrativa e expressa a mensagem que deseja transmitir aos espectadores. A história muda drasticamente, migrando de nuances suaves para um tom tenso, com um certo teor masoquista — pois é nestes cortes que Laxe expõe eventos dramáticos que exploram a real condição de, por exemplo, refugiados de guerra. Nos últimos tempos, parte da população do oriente médio não possuem outra opção a não ser enfrentar as armadilhas dos conflitos que tanto assola aquela região, como exemplificou o próprio Oliver em uma colocação metafórica: o que resta a eles, os refugiados, é tentar a travessia para o "paraíso" ou, por infelicidade, diretamente para o "inferno".

A escolha dos áudios e da trilha sonora contribui imensamente para que quem assiste sinta a experiência sinestésica, potencializando o impacto na hora de compreender o que se passa e gerando reações inesperadas — eis um dos pontos altos da película. Ainda dentro do enredo, o autor costura situações que causam profundo desconforto, sempre de forma crua e direta. Laços afetivos que validamos no decorrer das cenas ganham rumos que nos retiram da zona de conforto e nos impelem à autorreflexão. Talvez, diante dessas decisões, alguns reprovem os caminhos escolhidos pela coordenação artística, mas, caso fosse o contrário, certamente "SIRÂT" não teria alcançado tal prestígio.

Postagens mais visitadas