AMIGO SECRETO: Filme ajuda a construir parte do capítulo sobre o maior escândalo judicial do país


Amigo Secreto’ é o mais recente trabalho da cineasta Maria Augusta Ramos – responsável também por dirigir filmes como ‘Não Toque em Meu Companheiro (2020), ‘O Processo’ (2018) entre outros. Neste lançamento, também no formato de documentário, Maria Augusta sintetiza bem de forma nua e crua a rotina e bastidores de jornalistas a serviço de um dos maiores processos que coloca em xeque a imparcialidade do judiciário – sim, refiro-me ao vazamento das conversas entre os procuradores da Lava Jato e o ex-juiz Sergio Moro, a 'Vaza Jato'. Em uma sessão que dura pouco mais de duas horas, o filme consegue imprimir a verdadeira função do jornalismo e depoimentos reveladores que fazem com que tenhamos uma visão mais crítica dos desdobramentos de um dos maiores escândalos envolvendo membros da operação Lava Jato.

A narrativa do longa tem como foco os serviços de investigações das equipes jornalísticas dos jornais El País Brasil e The Intercept Brasil – este último foi o primeiro veículo de imprensa a ter acesso às trocas de mensagens entre Moro e a sua equipe. O protagonismo fica para os jornalistas Leandro Demori, atual editor-executivo do portal de notícias The Intercept; Carla JiménezRegiane Oliveira e Marina Rossi, todas elas à época editora e repóteres do El País. Vale ressaltar que os diálogos só vieram a público por meio de Walter Delgatti, conhecido como o “hacker de Araraquara”. Mesmo Delgatti sendo peça chave por desvendar o teor das conversas, ele não tem destaque no roteiro de Maria – acredito que não por uma falta de consideração e sim por, talvez, a diretora preocupar-se em transparecer a rotina de um jornalismo investigativo e imparcial.

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E é justamente sobre esse tema – o dever que profissionais de comunicação (jornalista) tem para com a sociedade – que o ser que vos escreve gostaria de destacar. 'Amigo Secreto' é um prato cheio para entender e discutir esse tópico. Aqui, os produtores tem um certo cuidado e sensibilidade em transmitir de forma nítida para o público os detalhes de como as equipes (The Intercept, El País) trabalham. De modo geral, o documentário tem um tom mais lento. As câmeras quase que estáticas, captam toda ambientação das locações (redações, residências...) e transfere autenticidade daquilo tudo que está sendo filmado. Tais técnicas fazem com que nós criamos maior aproximação com as cenas e entrevistados, tudo sem ensaios e dramatizações por parte dos entrevistados, correndo naturalmente, exatamente como um produto desse porte tem que soar. 

Sobre os depoimentos do elenco selecionado, mais precisamente daqueles que estiveram envolvidos diretamente com a Lava Jato, algumas falas são reveladoras e estarrecedoras. Chegamos ao ponto onde certo personagem, um executivo da Odebretch, Alexandrino Alencar, declarou que foi induzido a falar mais do que sabia, ou seja, existia o interesse, quase que obsessivo, em responsabilizar/criminalizar determinadas figuras públicas. E isso faz com que o espectador tenha, no mínimo, um ponto de reflexão. Já que esse caso, que ficou famoso por envolver executivos da maior estatal brasileira, a Petrobras, e Luís Inácio Lula da Silva em supostos esquemas de corrupção. Uma parcela da população terceirizou de olhos fechados a própria opinião, confiando plenamente na justiça – o que não julgo totalmente incorreto. No mais, a obra cria uma linha do tempo, onde o marco zero é a prisão de Lula, passando pelas as suspeitas de imparcialidade de Moro até o contestável governo de Jair Messias Bolsonaro.

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Ter posicionamentos políticos, escolher um ideal, aquele que você acha que é mais justo para o coletivo é natural, também é aceitável que determinados setores da imprensa demonstrem estarem mais alinhados com um lado ideológico – seja de esquerda ou direita – não é nenhum crime. O inaceitável é instituições que detém o poder da comunicação distorcer a realidade, deixar de mostrar os fatos para, simplesmente, favorecer interesses políticos ou comerciais.

Certamente, por conta da polarização que o país está passando, ‘Amigo Secreto’ sofra alguns ataques por parte da audiência – é esperado quando lados opostos travam “batalhas” em que o emocional seja priorizado em vez da sensatez. Mas uma coisa eu posso afirmar: Maria Augusta ajudou a construir parte do documento que denunciará para os livros de história sobre o maior escândalo judicial do país. 


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