segunda-feira, 13 de março de 2017

Moonlight: Sob a Luz do Luar


Por Fernando Pinheiro

Bom, como falar de Moonlight? Para começar, deixo claro que quero apenas registrar minhas impressões sobre essa obra prima, não farei uma análise profunda. Moonlight conta a história de Chiron em três momentos cruciais de sua vida e como esses momentos afetam a construção de sua identidade social. Negro, filho de uma viciada em crack e homossexual.

“À luz do luar negrinhos ficam azuis, vou te chamar de Azuldiz Juan, o personagem de Mahershala Ali (House of Cards) em uma das cenas mais lindas do filme. Dirigido e escrito por Barry Jenkins (Melancholy), Moonlight nos apresenta uma estética refinada e uma linguagem visual muito bem trabalhada, uma aula do que é cinema. É impressionante o controle de câmera apresentado e como a película visualmente consegue despertar a cada cena a sensação/sentimento proposto, seja ele de ameaça, tristeza, ansiedade, ou mesmo algum perigo iminente. Logo no início, por exemplo, nos deparamos com um plano sequência genial mostrando apresentação de Juan, do seu “ofício, sua postura e o perigo do local onde vive, e isso sem nenhum diálogo com ligação direta com o ambiente, sem uma descrição literal como de costume, mas absorvemos prontamente a proposta do diretor apenas ao ver a cena, não há um espaço para outra interpretação visual e essa qualidade técnica é explorada sem falhas durante todas as cenas subsequentes.

Um ponto a ser destacado é o bom uso da trilha sonora que se harmoniza com cada momento, sem excessos e de grande bom gosto. Temos, inclusive Caetano Veloso com Cucurrucucu Paloma, que já havia sito utilizada por Pedro Almodovar em Fale com ela, mas que, em Moonlight, praticamente descreve de maneira poética o que o personagem está passando, impossível não se emocionar. Outro exemplo pode ser percebido na cena do restaurante (ao final do filme), em que a música é sincronizada com os dois personagens mostrados, tal como um diálogo, em que a conversa é a própria música. 

O roteiro foi dividido em 3 atos, cada qual mostrando momentos decisivos na vida de Chiron, coisa que Boyhood tentou fazer, e que Moonlight consegue com maestria. O casting é totalmente formado por atores negros, funciona 100% bem, Mahershala Ali consegue, como Juan, passar o que a principio parece ser ameaçador, mas logo vemos que é poder, poder no sentido de segurança, ídolo, rocha, uma personagem de pouco tempo mas com uma uma profundidade tremenda e isso é repassado também visualmente, reparem que sempre que Juan está em cena tudo fica mais claro, como se ele fosse algum tipo de esperança para Chiron, uma luz e que poderemos entender mais a frente o porquê.

Os 3 atores escolhidos para Chiron também desempenham muito bem seu papel, a príncipio na infância com Alex R. Hibbert, na adolescência com Ashton Sanders e, por último, Trevante Rhodes (Westworld) como Chiron adulto. Em todos os caso temos representações críveis de como a personalidade se forma durante a vida e, em cada momento, o que cada uma traz de experiências anteriores, sejam influências do ambiente ou de outros personagens a qual Chiron convive. Nesse ponto é lido prestarmos atenção à linguagem corporal de cada um e os dois comportamentos que Chiron adulto tem, um da pessoa que ele se tornou e outro a partir do reencontro com Kevin (André Holland).  Naomie Harris (007 - Operação Skyfall) e sua atuação como mãe de Chiron também se destaca, é interessante ver a decadência da personagem com o passar do tempo, que em alguns momentos consegue causar uma certa repulsa e raiva ao espectador.

O tema do filme suscita várias reflexões, de início com o bullying, a crueldade infantil e como tendemos a ignorar sem ter a noção do impacto na mente e na personalidade de quem sofre, e a maneira como esses fatores se potencializam se somados a pobreza, ausência de uma figura que seja referência para o crescimento, e com a solidão, já que, embora Chiron vivesse com sua mãe, até mesmo em momentos triviais como tomar um banho, ele se encontrava só, e essa solidão é bem representada. Há também a questão da comumente hipermasculinização do homem negro, mudando esse ponto de vista nos fazendo pensar na fragilidade humana e em como algo que já é danoso ao ser humano pode ficar ainda mais cruel quando imposto a alguém dentro de moldes que a sociedade cria para indivíduos marginais. Nesse caso há uma intersecção entre homossexualidade, marginalidade e preconceito racial, tanto dentro da história como para além, nas representações em filmes. Essa intersecção é interessante para observamos a maturidade que o cinema Norte-Americano vem alcançando: primeiro a ausência do negro caricato, presente em quase 100% dos filmes negros, mesmo os de drama; e segundo no tocante a temática LGBT que, em geral, tínhamos apenas uma representação burguesa e limitada do quão difícil é ser homossexual. 

Moonlight reconhece o ser humano e não ignora onde ele está, ele busca aquela pessoa que está só, frágil, isolada na classe social mais baixa e traz para mostrar que há sim um caminho para ela. Por ser uma temática difícil, o diretor acerta com um roteiro e planejamento visual meticuloso, com uma trilha sonora absurdamente boa, com uma execução eficaz e que em nenhum momento recorre a solução fácil. Moonlight fará muito pelo cinema e pelas pessoas e sem dúvidas vale o ingresso, para mais de uma vez.